08 de maio, 25

A cidade está a zumbir muito antes de o sol nascer. As luzes de néon ainda piscam, um vendedor ambulante arruma as suas coisas e, algures, o motor de uma bicicleta ganha vida - baixo, constante, vivo. Esse som atravessa o silêncio, como um batimento cardíaco a acordar as ruas.

Quando anda na cidade, não se trata de fugir. Trata-se de pertencentes ao caos - a atravessar o trânsito, a apanhar o último sinal verde, a sentir o ar a passar pelo seu casaco. Não se limita a passar pelas ruas; você tornar-se parte deles.

Todos os condutores conhecem essa sensação: o momento em que o mundo abranda e a moto parece uma extensão dos seus pensamentos. Você gira o acelerador, inclina-se para uma curva e, por um segundo, tudo se encaixa - equilíbrio, som, velocidade e respiração. Não é adrenalina. É consciência.

Passa por painéis luminosos, paredes grafitadas e cafés meio adormecidos. O cheiro a gasolina e a chuva misturam-se no ar. Talvez uma música toque dentro do seu capacete, talvez não - o ritmo da cidade é música suficiente.

Andar pela cidade à noite é diferente. Vê rostos nos carros que passam, janelas que brilham a azul por causa dos ecrãs noturnos, ruas molhadas por uma chuvada repentina. Você está lá, mas também noutro lugar - dentro do seu próprio espaço, do seu próprio fluxo.

Há quem diga que as motas são para os rebeldes. Talvez isso seja verdade. Mas os verdadeiros ciclistas sabem - não é rebeldia, é libertação. Um momento de honestidade num mundo que está sempre a correr. A estrada não se importa com quem você é, o que você faz ou de onde você vem. Em duas rodas, todos são iguais.

E quando a cidade finalmente acorda - quando os autocarros saem e as buzinas começam a ecoar - você já está a quilómetros de distância, com o motor a zumbir e os olhos no horizonte. Não viaja para fugir da cidade. Viaja-se para a sentir. Para a acordar. Para a acordar você mesmo para cima.

Porque em cada curva, cada sinal vermelho, cada zumbido do motor - há uma pulsação. O da cidade. O seu. A mesma batida.

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